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Eu ainda era menino quando meu avô lançou o livro ‘Emilinho, o Justiceiro', na cidade de Santos, no inicio de 2005. Reuniu toda a família. Eu tinha apenas 15 anos. Desde um pouco antes, já admirava o clube praiano. Mais precisamente quando Robinho e Diego nasceram para o futebol, em 2002.
Na estreia do excelente livro criado por Irineu Cimatti, meu avô, o dia estava quente, embora, naquela época o inverno imperasse. O peixe era o time que eu mais gostava de ver jogar. Nas minhas peladas, me inspirava nos craques. Quase sempre não parecia com eles. Antes dos 7 a 1 contra o Corinthians, claro.
Mas o fato é que era uma equipe muito boa. Remanescente de 2004, quando o Brasileirão foi levado.
Desde então gosto do Santos. Conheci melhor a cidade, e comecei a admirar mais. Mesmo assim, nunca imaginei que assistiria alguém melhor que Robinho, Diego, Elano, Renato, Léo e Ricardo Oliveira. Depois, alguns anos em diante, a situação foi ficando cada vez mais duvidosa.
E eu duvidei.
Hoje, aproveito para pedir desculpas para um gênio. Que naquela época era apenas um menino, que construía castelos de areia na praia. Nascido em Mogi das Cruzes, Neymar se fez Santos. Sempre será glorioso.
Perdão. Ainda que moleque ainda sejas. Não que resplandeça em pecado, vejo como qualidade. Espero que continue para sempre assim. Nos gramados, de verde e amarelo também. O Brasil é quem ganha com tudo isso.
Pelas ruas, com a minha mania de conversar com muita gente, descobri que vários ergueram o punho por teu Santos. Justamente por ti. Não por Ganso. Não o Arouca. Não por Elano.
Por Neymar. Só.
Mais que isso. Muitos também duvidavam que nasceria outro embrião melhor que os citados. Neles se inspiravam, e não jogavam nem um milésimo. Não era só eu.
Depois, vi que o país inteiro fazia isso. Sem mesmo perguntar para todos os indivíduos, eu suponho como um tiro certo na vitima. Ontem foi o Guarani. Guerreiro.
No final do jogo, como bem observou Mauro Beting na Rádio Bandeirantes, estavam lá os 10 jogadores do peixe no campo de defesa. Apenas o 11 lá na frente. Isso justifica a campanha santista neste Paulistão. Um elenco bom; um craque/estrela.
Constelou.
Vibrou.
Driblou. Ao quadrado. Cubo...
Depois foram os jornalistas, no final do duelo. Só um exército batalhou, o outro deu show.
O Santos é tri. E tem tudo para ser bi da Libertadores.
O menino que estava no lançamento do livro, em 2005, nos ares de Santos, agradece. Por aprender um pouco mais de bola, que agora viu que nada sabia. Se ainda gosta de futebol, muito tem da participação dos teus pés. Que chutaram para longe qualquer jogo ruim.
Pois só Neymar é genial hoje no Brasil. Para não dizer divino.
Amém.
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Era por volta das 14h de sábado, dia 12 de maio de 2012. Véspera de um Dia das Mães. Resolvi começar um projeto novo, que tira as pessoas de ramos das estatísticas. E é esse o motivo do ‘Nós Não Somos Números'. Quis contar as histórias de um asilo. Sem mesmo caneta ou papel, apenas com o gravador e o sentimento.
Passei pelo mercado e comprei duas caixas de bombons e um tablete de chocolate branco. Talvez para adoçar uma visita triste, que já sabia que iria me emocionar. Sem saber o que me aguardava, fui. Tipos diferentes de doces, para enveredar bocas solitárias. A pauta era conversar com algumas mães.
No primeiro, não consegui entrar. Deixei uma das caixas e fui procurar outro.
Achei. Neste pude conhecer. Mas não fui permitido a divulgar o nome, endereço ou funcionamento. Nem mesmo os personagens desta crônica/reportagem.
Logo que passei pela porta, conheci uma senhora bem vivida. Sentada. Com um semblante de felicidade. Assisti sua ânsia de viver. Carência acentuada na cadeira, em vista para uma rua pacata. Mais ou menos como a realidade deste tipo de lugar. Com ventos soprando e a ilusão distante. Poucos veículos passavam, e o meu carro pela porta ficou.
Dona Maria* completava 104 anos neste sábado. Na primeira pergunta não se lembrava bem de quantos já havia somado. "Passei dos enta", brincou, com um leve sorriso no rosto. Depois se recordou. Ela sofre de Alzheimer, que prejudica certa parte da memória de muita gente. O passado não foi esquecido.
Dona Maria* tem a mesma idade de Oscar Niemeyer, arquiteto que projetou a cidade de Brasília. Nasceu em 1908. E, como o gênio, fez história. Foi dona de casa. Cuidava do seu único filho, hoje casado. Não perguntei se tinha netos, pois a ‘entrevista' não foi autorizada. Arquitetei entrevista e fiz disso um bate-papo.
Com as costas no encosto, ela aguardava ansiosamente a chegada de seu marido. Amado esposo, que traria um bolo de chocolate gelado. Com velhinhas, os 34 idosos (nova família, com um ano e dois meses de casa) acenderam a memória. Mas quem trouxe foi o filho, em uma das não muitas visitas. O marido, engenheiro, faleceu há tempos.
Assistiu Getúlio implantar a ditadura e depois se matar. O cometa Halley passar por duas vezes. Viu o Brasil ganhar a Copa do Mundo em cinco ocasiões , e perder em 1950. Acompanhou Mazzaropi. Franco, na Espanha. Mussolini, na Itália. Hitler tentando acabar com o planeta. Passou por duas guerras mundiais. E hoje vê sua vida se encerrando. Como uma enciclopédia, cheia de conhecimento, guardada no armário da sua cabeça.
Foi casada algumas vezes. Tampouco se recorda das exatas datas em que o destino foi escrito no caderno. Não insisti. E nem perguntei os motivos deste final, porque achei que não era o caso.
O encontro marcou duas datas importantes: o Dia das Mães e mais um ano de vida completo. Todos estavam aguardando. Uma companheira de Dona Maria*, Dona Cláudia*, contou que a companheira estava sempre feliz. Cantarolava músicas tristes e animadas, com a mesma intensidade. Entre os artistas preferidos, estavam os religiosos e Roberto Carlos. Com uma canção em especial:
"Como vai você? Eu preciso saber da sua vida. Peço alguém para me contar sobre o seu dia. Anoiteceu e eu queria só saber (...)". Nesta balada, a maioria dos moradores do asilo se embalam em lágrimas, como contou o funcionário *Claudio Ezequiel. "Toda terça-feira tem música aqui. Se lembram do passado e presente. Hoje estão felizes, são muito amados por todos nós."
Os funcionários de almas limpas. Brancas como a nuvem resplandecente no céu, e a roupa vestida. Alguns enfermeiros, limpando algumas das fraldas que tanto esvaziaram outras, em alguns dos tantos dias atrás. Fortalecendo uma saudade imensa, como a que a Dona Maria* sente, da sua mãe, por exemplo.
Esperava quietinha. Com um longo sorriso no rosto. "Minha mãe está viva. Só não sei em que lugar está. Um dia ela virá me visitar". Tratou-me como um filho. Talvez coisa que ela nunca tenha tido nos descaminhos das avenidas. Me beijou cerca de 15 vezes o rosto. E saí, para procurar mais pessoas. Não fiquei para a ‘festa', entretanto dei mais algumas caricias e meus parabéns sinceros.
Achei Cristina*, moradora do Brooklin, na Zona Sul de São Paulo. Filha de *Dona Cláudia e mãe de três filhos. Todos maiores de idade. Pediu para que a mãe não fosse entrevistada, pois ficaria muito triste no amanhecer do dia. E eu, claro, respeitei.
Em conversa, descobri que as duas foram professoras de piano. Com uma música em comum: My Way, de Frank Sinatra. A relação era difícil, pois *Dona Cláudia era muito ‘mandona'. Viúva, tem dois filhos. "Quem tem que ter a última palavra é a pessoa". Como conta *Cristina, filha dela, que paga R$2.000 pela hospedagem.
*Cristina disse ainda que viveu a vida toda pela mãe, e a prioridade não era o marido (engenheiro), genro de *Dona Cláudia. Depois de quebrar o fêmur e ficar sem poder falar, "ela (Dona Cláudia*) não mudava". E o caminho foi o asilo.
Os filhos todos concordam. A casa, de fato, é muito bonita. Repleta de amor e respeito por todos os mármores. E uma nova família fez-se. Lá ela pode assistir a novela ‘Chocolate com Pimenta' (seu passatempo predileto), e esquecer um pouco do seu drama. Se recorda de quando o conto era passado mais tarde. Hoje dorme cedo.
"Ela (*Dona Cláudia) mudou. Eu sofro muito. Queria ter a minha mãe próxima, mas a família iria descambar. Eu sondo, fico triste, mas meus filhos logo falam que eu iria morrer se tomasse a decisão."
Enquanto a conversa ainda era desenvolvida, ouviu-se um berro: "Filha!". Voltamos para a cadeira.
"Você demorou. Eu quero a sua companhia", disse Dona Cláudia. "O que vocês estavam fazendo?", e *Cristina desconversou.
*Dona Maria é viúva e se casou com 19 anos. Seu esposo era vendedor.
E mais um Dia das Mães chega. No domingo, certamente, muitos estarão acompanhando seus parentes. Aprendi, como diz a música de Roberto Carlos, a ‘não deixar tanto a vida para depois'.
Nós não somos meras estatísticas, cada um tem sua história de vida. Coisas para contar. Amizades para sempre, ninguém é só um número. Nem *Dona Cláudia, nem *Dona Maria, nem *Cláudio Ezequiel e nem a *Cristina. Nem você e nem eu.
Feliz Dia das Mães para todos!
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Não tenho medo de escrever que o Santos é o campeão paulista de 2012. Sabemos todos que ainda falta um ‘morumba', tema polêmico desta final. Mas o Guarani não terá forças para desbancar o forte clube praiano.
O clube alvinegro joga como música. No auge da afinação do ‘nascer, viver e no Santos morrer é um orgulho que nem todos podem ter'. E é verdade. Ninguém no Brasil conta com craques como Neymar e Ganso. Linha de volantes comandada por Arouca, rejeitado em outros tempos no São Paulo.
Nós, meros mortais, por vezes criticamos. Pois estamos acostumados a falar que bom futebol é o que o Barcelona exerce. Com o trio Xavi, Iniesta e Messi. A posse e o bote de uma cobra da bola, que envolve. E, de fato, é o melhor do mundo. Indiscutivelmente.
O time de Muricy não joga nem metade do Barça. Entretanto faz o suficiente para prevalecer o mais bonito futebol dos gramados tupiniquins. Não é por acaso que é o atual campeão da América. Faz consigo a base da amarelinha, tão desprivilegiada para uma Copa do Mundo na sala da sua residência. Um pouco bagunçada, com roupas no carpete. Muito endinheirada. Com alguns alagados por cachoeiras.
No esporte, o Guarani é um time do interior do Estado. Nem tão forte, nem tão bom. Cheio de tradição, de tempos de outrora. Venceu o cada dia mais fraco Palmeiras. E depois teve a missão de derrubar a rival Ponte Preta, no clássico de Campinas. Tem seus méritos, e não é demérito nenhum cair diante do peixe.
E já caiu. As surpresas vão parar por aqui no Paulistão.
Até o geralmente desleal Domingos poupou seu amigo Neymar no embate. Talvez a grande novidade desta final. Fumagalli fez falta, e Medina não tem qualidade suficiente para substituir o substituível camisa 10 bugrino. Que está longe de ser genial, todavia é importante para o alviverde do interior.
Mas o clássico de outros tempos foi decidido em um pênalti, no meio da semana passada, nos bastidores: quando os dois jogos foram proclamados no Morumbi.
O Guarani abaixou a cabeça e aceitou ganhar um pouco mais para colocar as chuteiras no estádio do São Paulo. Para o peixe, é maravilhoso. É como se fosse jogar os dois jogos em casa. Ali o glorioso, que completa seu primeiro centenário, começou a vencer o torneio.
E agora, com três a zero, pode gritar sem medo: ‘tricampeão'. Pois nem Domingos, nem bugre, podem assombrar ou fazer cara feia para o melhor do país.