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Entendo perfeitamente as razões de quem torceu contra e compartilho suas preocupações. Se houve descalabro e roubalheira na organização do Pan-Americano do Rio, em 2007, é lícito temer que haja ainda mais na preparação dos Jogos Olímpicos. Tudo é maior agora: o dinheiro envolvido, os problemas de segurança e infraestrutura, o uso político do evento, a exposição do país ao mundo.
Mas concordo com o que Xico Sá disse no "Cartão Verde" e escreveu aqui: se, para fazer alguma coisa, ficarmos esperando a corrupção acabar, nunca faremos nada. O desafio é lutar para que a coisa seja benfeita e traga benefícios permanentes. Cobrar, fiscalizar, fungar no cangote dos responsáveis.
Os otimistas veem o Brasil como "o país do futuro". Os pessimistas acham que esse futuro, ou sua possibilidade, já passou, e que saltamos da barbárie à decadência sem conhecer a civilização, como insinuou Lévi-Strauss.
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O excesso de crítica e de autocrítica pode levar à paralisia. "Tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva", escreveu Drummond. Isso se aplica a muitos de nós. Há até um certo gozo, volúpia, no fracasso. Ele nos desobriga de seguir tentando.
A ideia de "país do futuro" também pode ser paralisante, pois sugere que basta esperar sentado pelos dias melhores. A questão é: quando começa o futuro? O dia seguinte à escolha do Rio como sede da Olimpíada é um bom dia para começar.
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O "complexo de vira-lata" de que falava Nelson Rodrigues só foi superado com a conquista da Copa de 58, na Suécia. A situação então se inverteu simetricamente. "Com brasileiro não há quem possa", dizia a célebre marchinha da época. Após Copa de 90, a quinta sem vitória brasileira, a banda Ultraje a Rigor vociferava "A gente joga bola e não consegue ganhar" e concluía: "Inútil, a gente somos inútil".
Ou seja, ou somos os maiorais ou a cloaca do universo. Potência do futuro ou republiqueta cronicamente inviável. Será que já não está na hora de superar essa estéril bipolaridade?
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Que a escolha do Rio sirva para nos fazer encarar nosso papel na construção de um país de verdade.
(José Geraldo Couto – Folha de S. Paulo, Caderno de Esporte, 03/10/2009)
Nada como o contraditório, ou melhor, para os que sabem lidar com ele. Não pude perder a oportunidade de postar um texto que amplia a discussão que provoquei no dia anterior. Não quero nem me sinto feliz em ser do contra, mesmo que não acreditem nisso, mas o texto brilhante acima interpreta de forma lúcida e equilibrada, virtudes que não possuo mas tento reconhecer nos outros, toda a conjuntura e aspectos envolvidos na realização destes monumentais eventos esportivos em nosso país.
Confesso, me referindo ao texto, tento superar essa estéril bipolaridade, tento acreditar na utopia possível de um país melhor. O diabo é que eu leio jornal todo dia e os fatos insistem em me provar o contrário, esfregando ostensivamente na minha cara, dia após dia, uma avalanche de casos grotescos e hediondos, ridículos não fossem trágicos, de acontecimentos dos mais perversos e cruéis que não valem a pena comentar aqui, até porque tá todo mundo careca de saber. Mudam-se as moscas mas a merda continua exatamente a mesma, ou mais fétida ainda.
Mas o texto é inspirador e chama-nos à reflexão, de talvez, uma vez mais, tentemos, num esforço hercúleo, desmedido e sobrehumano, acreditar que seja possível, através dos instrumentos regulatórios da sociedade civil organizada, manter sob rédeas curtas os mandatários deste país e seus exímios assessores e empreiteiros. E quem sabe, e que Deus nos ajude, proteja, abençoe e nos dê forças e o juízo necessários, possamos, a partir destes eventos, sermos definitivamente a nação do futuro, um país de verdade e um exemplo de justiça, prosperidade, paz social e oportunidades e punições para todos os cidadãos, independente do seu saldo bancário. Amém!
Acabo de ver no noticiário a escolha do Rio para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Motivo de orgulho, júbilo e rasgada euforia para todo povo brasileiro, em especial o carioca e especialíssimo toda comitiva que embarcou na boca livre, na faixa, di grátis, rumo à Copenhague (gostaria que me trouxessem duas nhás bentas e uma caixa de língua de gato, com reembolso, é claro). Até o agourento corvo Edgar do mano Xico Sá está de acordo com o dito veredicto. Portanto, sinto-me, pois, pior que uma ave de rapina, em ousar ser voz dissonante e discordante. Do contra, como de costume. Talvez apenas eu, o Juca Kfouri, e uma meia dúzia de infelizes gatos pingados. Mas já consigo antever a farra do boi que será para a elite bezerreira, os que não largam a teta em hipótese alguma, com o auspicioso calendário que se avizinha. Copa 2014 e Olimpíada 2016. Garanto que se o país não quebrar desta vez, passo a acreditar que Deus realmente é brasileiro. Apenas para ficar em um único exemplo, o Engenhão, por ocasião do Pan 2007, foi inicialmente orçado em R$ 80 mi e acabou custando a bagatela de R$ 450 mi, ou seja, um sobre preço acima de 500%. Pior, ou quase, o TCU apenas concluiu o relatório de auditoria dois anos após o evento. Misericórdia!!! Óbvio ululante, sem trocadilho, que deverá haver incrementos significativos para os esportes de alto rendimento, já que o governo engatinha no fomento à massificação da prática esportiva no país. Tão certo como tudo isso servirá para encastelar ainda mais os todo poderosos na CBF e COB. Além é claro, que uma miríade de candidatos usarão estas conquistas como plataforma, já nas próximas eleições. E à exemplo do Pan, também haverá um acordo velado entre governantes e os chefes do tráfico para uma breve pausa no tiroteio, com o compromisso de que a polícia fará vistas grossas para suas ilícitas atividades comerciais. É o jeitinho brasileiro em sua máxima expressão. Assim, deverá haver uma verdadeira migração de meliantes de todos os rincões deste país, quiçá até do exterior, para a cidade maravilhosa, como se não bastasse os já lá estabelecidos, certos de que não serão molestados em seus nada nobres intentos. E o título do post, tirado da coluna de hoje do Zé Simão, bem que poderia servir como estratégia de marketing multifuncional, claro, em um dos casos, os gringos seremos nós.
Aviso ao incauto navegante: este texto não enaltece o duelo com os punhos, tampouco exalta os princípios milenares de "A arte da guerra" de Sun Tzu. Trata-se apenas do diálogo entre pessoas minimamente cultas, civilizadas e informadas, que concordam e discordam sobre temas corriqueiros ou nem tanto, sobre a vida, a morte e outras coisas mundanas ou universais. Como o futebol, por exemplo. Ousaria dizer que o crescimento humano e intelectual se dá muito mais no ambiente do confronto de idéias e opiniões que nas convergências e concordâncias. Desde, é claro, que haja um mínimo de receptividade e bons modos. Aceitar tolerantemente o contraditório parece ser o pressuposto básico, necessário e imprescindível para que homens e mulheres de bem possam buscar elevar seus níveis de conhecimento, de formação humana e espiritual, nos distanciando cada vez mais do tenebroso purgatório onde coabitam os medíocres, idiotas, cabeças de bagre, chatos e malas sem alça de toda natureza e espécie. A prevalência constante da concordância significa unanimidade, e, como sabiamente falou o mestre Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra! Já a divergência e o confronto de idéias podem sacudir os conceitos até então considerados pétreos, definitivos, e instigam a mente como preparação para iminente batalha intelectual. E então, no debate, as dúvidas e os questionamentos costumam ser tão enriquecedores quanto as respostas. As perguntas, oriundas da divergência, associadas à natural curiosidade humana, é que invariavelmente levam às descobertas, às invenções e à evolução em todos os sentidos. Portanto, diferentemente do confronto utilizado como forma última e inequívoca de demonstração de superioridade num conflito ou num embate esportivo, no campo das idéias o confronto busca a concordância. Ou, quando impossível, pelas naturais individualidades e diferenças humanas, pode propiciar pelo menos o respeito mútuo. Em suma: fora àqueles que entendem o confronto intelectual, o debate de idéias, a discussão sobre futebol, ou outras polêmicas instigantes, como uma questão de vida ou morte, como um ato de desonra, como uma afronta à dignidade. Estes párias, safardanas, sacripantas, pusilânimes e ignóbeis vis serão por si mesmos alijados do convívio social e retornarão rastejantes ao esgoto fétido de onde jamais deveriam ter saído. E temos dito!
(escrito ou digitado a quatro mãos por Afonso PJ e Pé Vermelho)