O brasileiro passa a vida torcendo. Torce para subir na vida. Arrumar uma boa profissão. Um bom casamento. Ser feliz. Torcer para um time de futebol, um craque ou até para uma modalidade esportiva pouco conhecida no país. Não importa. Basta torcer.
É o caso do estudante Vinicius Cesarini, 16, que é fã incondicional do futebol americano, que não tem relevância em solo brasileiro. Ele acompanha o dia a dia de um time dos EUA, o Pittsburgh Steelers , da Pensilvânia. Até pratica o esporte, pelo Palmeiras, de forma amadora.
Mas o que leva alguém a escolher um ídolo, um time, transformando clube ou homem em ícone, em exemplo a ser seguido? "As pessoas começam a torcer por ter simpatia por determinado clube. Seja ela construída a partir da família, ou por diversos outros motivos. É como ter um amigo, ganham e perdem juntos", explicou o psicólogo Sérgio Mascoli, 53.
Para o especialista, "o torcedor capta e traduz a mensagem de vitórias e derrotas em sentimentos". Segundo ele, esses sentimentos são preenchidos com o esporte. Mascoli, porém, faz um alerta: Não se deve extrapolar os limites. Torcer precisa ser algo "absolutamente saudável".
Para torcer, o que não falta é modalidade esportiva. O vôlei é uma delas, e em franco crescimento no Brasil. Só perde para o futebol em termos de preferência nacional. Uma pesquisa do "Atlas do Esporte no Brasil", de 2003, são 15,3 milhões de fanáticos por vôlei. Já o futebol, cinco vezes campeão mundial, consegue atrair 30,4 milhões de adeptos, que acompanham o esporte nos estádios, pela TV, rádio ou até em bares.
A são-paulina Danielle Bertol, 16, é uma aficionada pelo vôlei. Antes de sofrer lesão no joelho, sonhava, inclusive, em seguir uma carreira profissional. "Pretendo continuar, mas só por brincadeira."
E não é preciso ser um time ou equipe de grande expressão nacional para ganhar a simpatia de um torcedor ou torcedora. Danielle, por exemplo, que já atuou pelo Banespa e São Caetano, agora vê, da arquibancada, o desempenho de sua nova paixão: o Sollys Osasco.
A explicação para que o vôlei tenha se tornado a segunda paixão nacional esportiva é simples: vitórias. Até os anos 80, era um esporte sem muito ‘charme' no país. Contudo, cresceu-se um novo espírito na modalidade dentro do país, e nascia o time apelidado como ‘Geração de Prata' (nome dado devido aos vice-campeonatos na Olimpíadas de Los Angeles e Campeonato Sul-Americano de 1983).
Depois veio o ápice do esporte, que perdura até os dias de hoje. A Seleção Brasileira de Vôlei coleciona quatro medalhas em Olimpíadas, sendo duas de ouro (Barcelona, 1992, e Atenas, 2004) e duas de prata (Los Angeles, 1984, e Pequim, 2008). Além de ser nove vezes campeão mundial da Liga Mundial, a última em 2010.
Contudo, há também os esportes sem muito prestigio em títulos que são bem praticados no país. Ainda segundo a pesquisa do "Atlas do Esporte no Brasil", o terceiro colocado, é o tênis de mesa, com 12 milhões de praticantes no Brasil. Seguido por natação, 11 milhões, e futsal, 10,7 milhões.
Há também os esportes carentes de público no país. Mesmo sem ser tão disputado em terras brasileiras, o futebol americano é um exemplo. Soma mais de 100 equipes e cerca de 5.000 jogadores em atividade, segundo dados da Associação de Futebol Americano do Brasil (AFAB). Porém não é amplamente divulgado na mídia esportiva.
Porém basta uma TV para o fanático se realizar com o esporte predileto. Foi o que aconteceu com Vinicius Cesarini, aficionado pelo jogo desde 2004. "Vivia passando na televisão, comecei a assistir e estudar mais sobre o esporte."
O sonho de Cesarini é assistir em pleno estádio a um jogo do Pittsburgh Steelers, mas não conseguiu. "Fui aos Estados Unidos em junho, mas já havia acabado a temporada."
Mas não são apenas as modalidades coletivas que atraem os fãs. Até uma corrida de carro tem seu público cativo. É o caso da Fórmula 1, que, no Brasil, se tornou tão popular quanto o futebol, graças a competidores como Emerson Fittipaldi (bicampeão da categoria em 1972 e 1974), Nélson Piquet (tricampeão em 1981, 1983 e 1987) e, por último, o considerado uma espécie de ícone desse esporte. Trata-se de Ayrton Senna, tri em 88, 90 e 91.
A morte do piloto, em 1994, transformou-o numa espécie de lenda das pistas. O professor de inglês Klauss Celadon, 53, faz parte da legião de Senna, desde o tempo em que o brasileiro atuava pela Lotus, em 1985. "Fiquei muito triste. Um choque para a nação inteira", contou Celadon, ao se referir ao trágico acidente de Ímola, na Itália.
Celadon contou ainda que Senna não era somente ídolo no Brasil. O professor morou na Inglaterra durante 16 anos, e conta como o povo inglês via Senna. "O pessoal de lá sabia o que ele representava para o povo brasileiro. Era adorado por todos."
Futebol: o esporte mais apaixonante do Brasil
É natural que o futebol seja o esporte que mais leve torcedores ao fanatismo. Em qualquer esquina pode-se ver pessoas com camisas e escudos de times, sejam eles brasileiros ou internacionais.
Entretanto, o torcedor ‘saudável' é o melhor exemplo. Os fanáticos, que brigam, literalmente, por seus times, encontram problemas de relacionamento. "O ‘doente' é um pobre de ego. Tem que importar a força do ídolo pra se sentir forte também", disse o psicólogo Sérgio Mascoli. "Querem agredir quando perdem e não admirar quando ganham, ou vice e versa", ressaltou.
Segundo pesquisa da Fifa, realizada em 2006, aproximadamente 270 milhões de pessoas no mundo estão envolvidas no futebol. Entre os praticantes, sejam homens, mulheres e crianças, 265 milhões são atletas profissionais, amadores e semi-profissionais. Esse número representa 4% da população mundial. São 1,7 milhão de equipes e, aproximadamente, 301 mil clubes.
Entre os brasileiros, o número do fanatismo é elevado. Segundo pesquisa de 2010, da Unilever Higiene Pessoal, em lançamento do antitranspirante Sportfan, Rexona Men, em parceria com o Ibope, 35% dos entrevistados são fanáticos. Os envolvidos com o tema chegam a 32%, e os que são alheios ao esporte somam 33%. A pesquisa foi realizada com 300 homens, de 25 a 35 anos, das regiões Sudeste, Sul e Nordeste.
O Brasil é, de fato, o ‘país do futebol'. Com cinco Copas do Mundo (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002), a camisa amarela é a maior vencedora dos torneios mundiais. E o mundial, de 2014, no país, promete apaixonar ainda mais os torcedores. Entretanto, não são todos os brasileiros que torcem pela seleção canarinho.
O jornalista esportivo André Coutinho, 33, teve a experiência de cobrir duas Copas do Mundo (2006 e 2010). É brasileiro. Porém, mesmo sem parentesco, é torcedor da Seleção da Holanda. "Comecei a torcer pela Holanda em 1988, quando foi campeã da Eurocopa. Era um timaço. Eu dizia: agora sou torcedor da Holanda."
A ligação com a seleção européia vem desde cedo. Aos sete anos, jogando futebol de botão, Coutinho tinha que escolher com qual equipe iria jogar. "Gostava da camisa da Holanda, da cor, e escolhi para ser meu time."
Em 1994, na Copa do Mundo dos Estados Unidos, Brasil e Holanda se encararam nas quartas de finais do torneio. Coutinho estava em um churrasco acompanhando a partida. "Quando a Holanda fez o segundo gol, eu comemorei e fui expulso. Ali me oficializei torcedor da Holanda", disse. A partida terminou três a dois para o Brasil. Mais tarde, os brasileiros seriam tetracampeões do mundo, diante da Itália.
Em 2010, como jornalista, deparou-se a outra disputa entre os dois países. Só que desta vez não comemorou gol, pois estava cercado de brasileiros. O jogo terminou com vitória holandesa, por 2 a 1, e desclassificação do Brasil na Copa.
Porém Coutinho deixa claro que sua torcida pela Holanda não significa que seja contra o Brasil. "Quando criança, eu me perguntava: ‘Por que a gente tem que torcer pela Seleção Brasileira? Só por que nascemos aqui? E quem nasce em São Paulo, tem que torcer pelo São Paulo?'", questionou. Coutinho coleciona 33 camisas da seleção holandesa.
Entre os clubes brasileiros, o time que conta com maior número de torcedores é o Flamengo, com 33,2 milhões de pessoas. O Corinthians segue o ranking, somando 25,8 milhões. E o São Paulo finaliza os três primeiros, com 16,8 milhões. Esses dados são de pesquisa Ibope de 2010.
Mas não precisa ser um clube de massa para atrair simpatizantes. Alguns até se transformam em referência pela história passada, como o Juventus, da Mooca. A Ju-Jovem, principal torcida do time, completou 30 anos no dia 6 de setembro.
Seu presidente, Sergio Mangiullo, 59, é apaixonado pelo clube paulista. "A minha paixão é tudo. Tem aquela bandeira há 30 anos. Eu amo o Juventus. Tenho coisas inesquecíveis. Esta torcida viu tudo. Tudo que você imaginar."
Se a paixão é grande por times pequenos, não pode ser diferente quando se trata de equipes grandes. Rafael Boffa, 22, que é corinthiano, com ‘th', como ele mesmo refere-se ao nome do clube, é um dos 25,8 milhões de ‘loucos' espalhados pelo Brasil.
Todavia, Boffa é apelidado como ‘Palestra', em referência ao nome do estádio do Palmeiras (Palestra Itália), nos arredores juventinos. "Desde cedo sou sócio do Juventus, e desde então me apelidaram assim. Eu não ligo", contou.
Se o Corinthians é o segundo no ranking brasileiro de mais torcedores, o Palmeiras, proprietário do Palestra Itália, é o quarto time com maior torcida do Brasil. São 11,6 milhões adeptos alviverdes.
O senso comum diz que público masculino acompanha mais os capítulos futebolísticos que as mulheres. Porém a modelo Monize Davini, 20, é palestrina de mão cheia e não deve nada a qualquer torcedor do Palmeiras. "O meu sentimento nas derrotas é um vazio muito grande. Uma tristeza sem fim. E nas vitórias não há nada melhor do que comemorar uma vitoria do Verdão."
Davini sonha, inclusive, em ser musa do Palmeiras. "Não deve ter melhor sensação no mundo do que representar um time de grande tradição como o Palmeiras. Além de ser o time do meu coração."