
@guicimatti
guilherme483@hotmail.com
Ouvi falar que o Maracanã mudou. Perdeu os dentes de concreto, em gerais malucas. Piso agora com cadeiras sabe-se lá quantas mil. Torcidas antes incendiadas por uma bola e 22 craques - sim, houve tempos em que todos lá em campo eram craques – terão de se acostumar com uma pitada generosa de modernidade que nem sei se nos cabe.
Como não cabem mais os quase 200 mil brasileiros, chorados e chorosos até hoje, de 1950 contra os uruguaios. O templo é nosso, ainda que o tempo quisesse mais tarde, em nuvens de chuva, inundar a nossa bola. Hoje mais leve; hoje menos brasileira. Nossos jogadores se habituaram que bonito mesmo é defender. Neste pensamento de só ganhar – sem miseramente vencer – temos nos perdido.
Contaram-me, Maracanã, que tuas redes, por ordem do tempo, serão quadradas. Como são na Europa, em maioria. Sem aquele famoso véu de noiva, que nos fazia, junto da bola, descansar alguns segundos após cada tento. Ela entrava, desconsolada, e não tinha coragem de sair dali. Encarar os outros fanáticos, traídos por um gol contra. Porque até ela, a bola, tinha vergonha de ser parcial.
No chute forte de Branco ou no bico sem força de Romário, por lá a bíblia do futebol fazia casa. Os goleiros, ah os nossos velhos arqueiros de história, deveriam pensar que morrer no fundo do gol era falecer e correr o risco de não mais voltar. E se evitavam assim por uma vida de mais reconhecimento.
Foi numa espécie dessas que Pelé deitou pela milésima vez, em pênalti, rasteiro e continuo, no canto de um Vasco da Gama forte - que por lá também tanto fez casa.
Foi num destes tipos que Leônidas da Silva inventou o famoso e pouco reinventado na nossa modernidade gol de bicicleta. Por lá Didi batia faltas – que até hoje nem sei como se fazem – fazendo com que a redonda caísse, de repente. Entrando, fogosa, em efeito que não pode ser descrito por qualquer frase de efeito.
A forma quadrada, desta que te enquadraste, rede amiga, é um símbolo preocupante. É a vontade de tão logo entrar e já ter de sair. Com pressa. Com fome de reinicio. Quando na verdade dói saber que o tempo bom não voltará mais. Adormeceu naquela saudosa baliza que tanto nos cansou. Que tantos casaram e romancearam nas arquibancadas. Que antes tinham a certeza de um placar aberto ou aumentado. Agora, com a rapidez, as consultas aos colegas de visualização poderão ser aumentadas. Não como eram nos anos 50, 60, 70, 80, 90 e 2000. Já que perguntar para o vizinho de amendoim nem sempre é ter segurança.
Segurança. Um falso sentimento que estamos nos vestindo para 2014.
Mas ainda pelados e reféns pelo que tristemente mudou.
Uma delas, sem o véu de noiva. Com o quadrado de alguma coisa que engasgada não desceu bem.
A rede ficou quadrada. No melhor exemplo do futebol que temos jogado.

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Um gordo, como ele mesmo se intitulou ao entrar no palco num desses shows de stand-up comedy, começou fazendo várias piadas dele mesmo. Contando casos e causos vividos por alguém acima do peso. Algo natural para os que não têm medo do bullying e dos tabus. A plateia foi ao delírio. Já havia passado por lá dois ou três comediantes. Dos cinco que se apresentariam até o fim da noite, era o melhor. Além da tarefa árdua do humor, cabia a missão de ser mágico nas horas vagas. Sim, era os dois.
De repente, ensaiado, entre uma piada e outra, olha para a plateia e chama uma garota, que acompanhada pelo namorado fica com vergonha. Uma timidez que logo fez com que as bochechas ficassem naturalmente vermelhas. A coluna descambou para frente e a cabeça desceu, em um movimento continuo e lento. O olhar caiu junto das mãos, já rebaixadas em sintonia com os braços. Demorou uma eternidade para que o humorista falasse a primeira frase depois do convite:
- Olhe para a plateia e estenda a mão direita, fechada, para frente - disse, completando com uma pergunta simples:
- Qual flor você mais gosta?
Ela respondeu o que a maioria das mulheres falaria, sem pestanejar: rosas. Vermelhas. Prefere as rosas vermelhas.
O humorista então pediu que a dama fechasse os olhos e pensasse nas tais rosas vermelhas. Ele havia feito magias com cordas e garrafas de cerveja anteriormente, pouco tempo antes de ousar o convite. Na cabeça da garota e de todos da plateia, surgiria, de repente, rosas vermelhas naqueles dedos trêmulos.
- Pode abrir a mão – completou o ator. Abriu-se mais silêncio.
Aí então ela aos poucos foi abrindo os dedos. Não havia rosa nenhuma.
- Já pensou que legal seria se surgissem rosas na sua mão? – rindo, o gordinho simpático levou a plateia à loucura. Ninguém esperava que não nasceriam flores ali. Foi um ensaio feito, refeito, com graça. Perfeito.
Em São Januário, estádio do Vasco da Gama, ratos foram descobertos entre as cadeiras e o piso das arquibancadas durante o treino deste sábado. O único palco dos grandes do Rio na cidade maravilhosa é também a casa de roedores não queridos por seres-humanos.
Quando apagam as luzes, é festa dos políticos, que providenciaram a má formação do Engenhão, do Botafogo. Há bolinhos de queijo sem ratoeiras para os animais da mesma espécie que eles, seja no futebol ou no campo parlamentar.
Cazuza tinha razão, na música “O Tempo Não Para”, no começo dos anos 80. Nossa piscina está cheia de ratos.
Convido-o, leitor, a ficar com as bochechas vermelhas, coluna descambada para frente e olhar, braços e mãos caídos. Esse é o Brasil, país sede da Copa do Mundo de 2014. Estenda o punho adiante e apague os olhos. Pergunto: como seria o evento dos seus sonhos?
Tudo leva a crer, agora, que a piada será sem graça. Só pode ser de primeiro de abril. Um dia depois. Sempre mais uma mentira.

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Dizem que o brasileiro começou a gostar mesmo de futebol depois que a seleção perdeu a Copa do Mundo de 1950, em casa, no Maracanã, com mais de 173 mil pessoas como público. Aquela derrota doída e doida teria sido derradeira ao gosto popular de querer sempre estar na frente em alguma coisa. O jovem Brasil caminhava e ainda caminha com duras pernas. É no futebol que um caçula pode vencer uma tradição e colosso de força e guerra.
O povo brasileiro naturalmente deve ter se assustado com o até então maior estádio do mundo, no meio das praias do Rio, sediando uma estrutura de peso como é a Copa. Não vivia naqueles tempos, portanto não posso afirmar de pelos arrepiados e plenos corações o que se passou com o time de Barbosa.
Mas será que se o Brasil tivesse vencido o Uruguai naquele dia o amor pelo esporte seria tão grande? Será que teríamos um Pelé oito anos depois para retirar aquela derrota marcada e remarcada por açougueiros, padeiros e sei lá mais o que dos nossos vizinhos? Venceríamos cinco vezes o campeonato?
Talvez tenha a sede por revanchismo forçado tal apreço ao que chamamos hoje de vida, para muitos fanáticos de espécie. Se muitos de nós tivéssemos vivido naqueles anos, poderiam chegar frases aos nossos ouvidos. Coisas do tipo: “de novo não”, “aquilo foi uma vergonha”, “temos goleiro menos frangueiro que Barbosa” e por aí vai.
O tempo passou. Criaram a televisão meses depois do tal vexame para alguns. Temos internet para dar, comprar e vender. Fizemos nascer Pelé, Garrincha etc. E agora, em 2014, o filme volta e o mundo gira novamente ao ponto de inicio: Maracanã, Rio, esperança, oba-oba, nacionalismo e ansiedade. Se a teoria estiver certa, não será tão ruim perder (o amor pela ludopédia, assim, aumentaria com a fome por vencer em casa em não sei quando). Se a teoria estiver equivocada, será maravilhoso triunfar pela primeira vez em próprias terras.
Entretanto que não elejamos “Silva”, “Camarguinho” ou “Betinho” como novos Barbosas, se por acaso a primeira opção for a escolhida pelos deuses do futebol.