Twitter: @guicimatti
guilherme483@hotmail.com
A goleada sofrida pelo Barcelona parece mais distante do que é. Lá no outro lado do mundo, na fria Alemanha, um banho de bola no ainda melhor time do mundo. 4 a 0 Bayern, em Munique.
Congelou.
Parece tão simples bloquear Robben, que só puxa para o pé esquerdo, feito um elástico, antes de carimbar o gol rival. Deixando marcas. Parece.
Mas não é. Como parecia impossível bater o Barça. Segurar Messi. Parar Xavi e Iniesta. Passar pela zaga e o meio de campo combatente. Ainda como foi. Como é. Com a vantagem que terá uma goleada fantástica.
Foi um show. Uma pintura.
O Barcelona, base da seleção espanhola. Um colosso temido. Com navegação até esta terça sem afundar em goleadas contrárias.
Os passes certos. As muitas trocas deles que renderam uma Copa do Mundo, em 2010, ao país que até então não tinha o título.
Sem Messi. É bom lembrar.
O Bayern de Munique fez igualzinho. Superou-os. Parecia impossível. Prova esta, de 23 de abril, que não é.
Não precisa rasgar pernas, estragar chuteiras e arrancar meiões para vencer um Barcelona. É só jogar como grande. Como Bayern. Perto do que faz há tempos o Barça.
Base da mesma Alemanha, agora com outros nomes, desbancada por nós em 2002.
Nós?
Nós não somos os mesmos de 11 anos atrás.
Temos o mesmo treinador. Um Felipão pode até fazer chover. Será?
Os dois últimos mundiais não são nossos. São dos outros.
Não temos mais Rivaldos, Ronaldos, Juninhos, Marcos e Robertos Carlos.
Não éramos favoritos em 2002, sim; hoje faltamos na aula que nos ensinou ontem que ser brasileiro é ter os maiores. Os melhores.
O futebol mais bonito. Jogado.
Ritmado feito um relógio.
Eles compareceram; eles aprenderam a nossa maestria.
Não temos, é bem verdade, um time. Quanto mais uma seleção.
Uma seleção ao exemplo dos seletos Barcelona e Bayern. Espinhas de corpos mais vivos que o brasileiro.
Tínhamos ano sim e ano não o melhor jogador do mundo.
Outra potência, nossa maior rival, a Argentina, só ela pode escalar um Messi.
Contentamo-nos com Neymar. Um gênio. Uma vítima da propaganda que não se propaga por lá como aqui.
Defendemos como eles defendiam antes; eles atacam como surpreendíamos nossos rivais em 1982. Em 1970. Em 1958.
As crianças de hoje pensam que jogar é bater. É isso que se leciona no país mais vezes campeão de Copas do Mundo.
Para mudar, é preciso, talvez, um intercâmbio.
Para a Alemanha ou Espanha.
Estamos perdendo nossos alunos. Um sinal de perigo e alerta para que não nos percamos em 2014.
Arrepia esse labirinto retranqueiro que enfiamo-nos.
Porque futebol é não se programar. É fazer.
Os gringos estão fazendo mais que nós.
Que esquecemos a lição de casa em alguma gaveta de Yokohama, em 2002.

Twitter: @guicimatti
guilherme483@hotmail.com
Nem sempre o craque vive da conspiração da humanidade. Teoria que abastece a cabeça de muitos, que acham que a bola já nasce no pé do boleiro.
O gol em final de Copa do Mundo, por motivo qualquer, está escrito. O político sai das fraldas fraudando adoidado. E o engraçado, ainda no berço, arranca risadas por seu jeito marcado quando mais velho.
Tento quebrar um pouco deste paradigma. E vou usar o livro “Vampeta: Memórias do Velho Vamp”, que conta a vida e os casos e causos do craque mais engraçado entre os que fazem rir no mundo do futebol.
Por incrível que pareça, sem um dos muitos contos que me arrancaram risos em um final de semana. Escrito pelo ótimo jornalista Celso Unzelte.
Muito bom, aliás, em um comentário com conhecimento de causa. Já que também escrevi um livro.
Vamp, pelas mãos de Unzelte, entre outras coisas, navegou pela Copa do Mundo de 2002. Onde a seleção, de avião, venceu o principal campeonato do mundo.
Depois de algumas vitórias, ainda na primeira fase, Ronaldo Fenômeno não se esforçava nos treinos.
Felipão, com o humor que sempre marcou o comandante, tirou-o do campo e promoveu a troca por Luizão.
A justificativa?
Lento. Ronaldo foi chamado de lento.
O arranque e explosão que o diferenciaram em toda a carreira, naquele momento, foram justificados assim.
Passado aos reservas, o camisa nove começou a deitar e rolar nos zagueiros titulares. Acabou com o treino. Girava de um lado para outro.
Não novidade para quem viu de perto o que ele sempre foi capaz de fazer. E até não fazer, em 1998, quando não teve capacidade física e mental, se redimindo de forma gigante. De forma Ronaldo. Em forma.
Lento. Lento. Lento.
Diziam os outros atletas, brincando com o homem do indicador do dedo direito na final daquela Copa, por duas vezes.
Desde então, nunca mais Ronaldo fez corpo mole naquela competição.
Mexeu com o brio. Resgatou o homem.
Hoje, às vésperas de 2014, três atletas podem ouvir a mesma coisa:
Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Neymar.
Lentos. – sabendo bem que não são. Ou no passado não foram.
Talvez o xingamento aos dois pentacampeões possa ser verdadeiro. E aí não há muito que se fazer.
Neymar? Craque. Gênio. Mas, agora, com tantas propagandas, lento.
Lento. Lento. Lento. Quase tão lento quanto a Justiça brasileira, que demora mais de 10 anos para julgar e condenar políticos corruptos do Mensalão. E mesmo assim nem cadeia dá. Ainda.
Lento, Neymar.
Não há, definitivamente, teoria da conspiração.
Pena que não haverá alguém engraçado como Vampeta para contar como será no ano que vem.
Uma pena o fato de que existem muitos palhaços – leia-se, nós – que pagam por ladroagem. Pecam pela roubalheira dos outros. Omitem-se na covardia de eleitos. Nem sempre por voto nosso.
Somos lentos. Lentos. Lentos.
Como Neymar.
Mas alertados.
Não sabendo afirmar a certeza de uma conspiração. Mas reafirmando que, se ela existe, é para os dois lados. Bom ou ruim.
Só que essa nossa omissão não será publicada nunca em um livro de humor.
Sem nenhuma obra deste tipo para acompanhar uma inflação bem servida. Com fritas e tomate.
Ou uma Copa não vencida. Com pipoca como segundo prato.
Uma indigestão daquelas.

@guicimatti
guilherme483@hotmail.com
Um gordo, como ele mesmo se intitulou ao entrar no palco num desses shows de stand-up comedy, começou fazendo várias piadas dele mesmo. Contando casos e causos vividos por alguém acima do peso. Algo natural para os que não têm medo do bullying e dos tabus. A plateia foi ao delírio. Já havia passado por lá dois ou três comediantes. Dos cinco que se apresentariam até o fim da noite, era o melhor. Além da tarefa árdua do humor, cabia a missão de ser mágico nas horas vagas. Sim, era os dois.
De repente, ensaiado, entre uma piada e outra, olha para a plateia e chama uma garota, que acompanhada pelo namorado fica com vergonha. Uma timidez que logo fez com que as bochechas ficassem naturalmente vermelhas. A coluna descambou para frente e a cabeça desceu, em um movimento continuo e lento. O olhar caiu junto das mãos, já rebaixadas em sintonia com os braços. Demorou uma eternidade para que o humorista falasse a primeira frase depois do convite:
- Olhe para a plateia e estenda a mão direita, fechada, para frente - disse, completando com uma pergunta simples:
- Qual flor você mais gosta?
Ela respondeu o que a maioria das mulheres falaria, sem pestanejar: rosas. Vermelhas. Prefere as rosas vermelhas.
O humorista então pediu que a dama fechasse os olhos e pensasse nas tais rosas vermelhas. Ele havia feito magias com cordas e garrafas de cerveja anteriormente, pouco tempo antes de ousar o convite. Na cabeça da garota e de todos da plateia, surgiria, de repente, rosas vermelhas naqueles dedos trêmulos.
- Pode abrir a mão – completou o ator. Abriu-se mais silêncio.
Aí então ela aos poucos foi abrindo os dedos. Não havia rosa nenhuma.
- Já pensou que legal seria se surgissem rosas na sua mão? – rindo, o gordinho simpático levou a plateia à loucura. Ninguém esperava que não nasceriam flores ali. Foi um ensaio feito, refeito, com graça. Perfeito.
Em São Januário, estádio do Vasco da Gama, ratos foram descobertos entre as cadeiras e o piso das arquibancadas durante o treino deste sábado. O único palco dos grandes do Rio na cidade maravilhosa é também a casa de roedores não queridos por seres-humanos.
Quando apagam as luzes, é festa dos políticos, que providenciaram a má formação do Engenhão, do Botafogo. Há bolinhos de queijo sem ratoeiras para os animais da mesma espécie que eles, seja no futebol ou no campo parlamentar.
Cazuza tinha razão, na música “O Tempo Não Para”, no começo dos anos 80. Nossa piscina está cheia de ratos.
Convido-o, leitor, a ficar com as bochechas vermelhas, coluna descambada para frente e olhar, braços e mãos caídos. Esse é o Brasil, país sede da Copa do Mundo de 2014. Estenda o punho adiante e apague os olhos. Pergunto: como seria o evento dos seus sonhos?
Tudo leva a crer, agora, que a piada será sem graça. Só pode ser de primeiro de abril. Um dia depois. Sempre mais uma mentira.