@guicimatti
Às 13h32 minutos sai do meu trabalho em direção da minha casa nesta terça-feira. Liguei meu carro, tomei rumo. Passei um, dois túneis (que, por coincidência, o último deles havia sido palco de arrastões). Até fica o alerta: atende-se por Túnel Sebastião Camargo, que liga o Morumbi à Avenida Juscelino Kubitschek. Claro, em São Paulo, onde moro.
Ouvia uma música em bom e alto som. Um homem fez sinal com os dedos, como se pedisse para diminuir o volume. O polegar e o indicador em um encontro mínimo. Diminui. Diminuí. Deu até uma repentina vergonha.
De repente ele encostou do meu lado e disse: “Seu pneu traseiro esquerdo está baixo, amigo. Pare no posto aqui do lado direito.”
Sou teimoso. Segui.
Logo depois, um quilômetro, outro carro buzinou:
“Enche. Você vai ficar na mão.”
Assumi o risco e continuei trafegando, tranquilamente. Não esperava, mesmo assim, que algum problema mais grave pudesse acontecer. Sabia que o máximo seria ter de parar e trocar o pneu. O que não era, de todo, nenhum desastre histórico. Evitável.
Quando o terceiro me alertou, parei. Não poderia ser só coincidência. Regularizei a situação do meu carro e consegui chegar em casa.
Parecia aquela historinha da mãe, que conta até três para o filho não fazer mais bobagem.
-Um.
- Dooooooois.
No terceiro, amigo, o bicho pega. Tive sorte.
Ganso não é um veículo. É um craque. Um gênio. Uma esperança.
Mas parece ter seguido os piores conselhos ao deixar o Santos e a torcida que tanto o adorava. Agora, em nova casa, num gigante feito São Paulo. “Mitável” de um gol de Ceni e de um ataque fabuloso.
Porém ele precisa voltar a jogar bola. Fazer com que ela corra, óbvio. Que o diferenciado também passe pelo campo como passa com chuteiras aos companheiros.
Ney Franco contou o primeiro. “Uuuuuum”. Paulo Henrique não respondeu.
O “dooooooois” se refere ao jogo contra o São Caetano, onde ele começará entre os 11 titulares, no próximo duelo. Ganso deveria ser sempre o primeiro de uma lista de camisas 10 do futebol brasileiro.
Agora, caro Ganso, não espere o “trêêêêêêêês”. Você pode não ter a mesma sorte que eu tive.
Seu pneu talentoso pode estourar. A mãe bola dificilmente vai te perdoar.
@guicimatti
Foi estranho. Moedas figuradas e figurativas, vaias e xingamentos. Assim foi Ganso recebido na volta à Vila Belmiro. Agora como vilão e adversário. Tricolor, de coração paulistano. Não mais paulista. Foi estranho.
Foi esperado. Da mesma maneira que a bola esperava que fosse passada por ele poucas vezes de forma errada. Paulo Henrique, na Vila ou no Morumbi, não é de errar passes. Ainda que tenha errado a passada ao fazer de tudo pelos seus empresários e passar a não fazer de nada por quem o revelou.
Sorte do São Paulo, tricampeão e forte na briga pelo tetra da Libertadores. Time bem montado e articulado, desde a zaga até Luís Fabiano (que perdeu um gol feito). Os feitos devem ultrapassar mais limites, na briga com o Corinthians. Os investidores.
Do outro lado, foi Neymar. Mas isso não é novidade. É manchete. É craque. É o melhor do Brasil.
Não foi Rogério Ceni. Mas continua sendo um dos melhores arqueiros do país envelhecido com os regressos de corações calientes.
Todavia nada foi mais fervoroso que a festa da torcida corintiana para Alexandre Pato. Prometo aqui não fazer - pelo menos não nessa crônica - qualquer trocadilho com o nome e a ave. O Timão voa, idno de novo ao seu ninho. Ninguém fica sozinho. Voando para viver. Em ritmo de Carnaval.
Lá foi o pato "patar" aqui e acolá.
Desfiz minha promessa. Não aguentei. Perdoa-me.
Anunciado os que foliam e os que choram. Moeda para Ganso. Aplausos para Pato. E dois "quacs" para vocês.
Que Deus te abençoe, menino Ganso. Proteja-te de teus assessores e arrancadores de promessas. Que arranques outras arrancadas de Lucas, novo parceiro de outros tempos. Pouco tempo, até que o PSG, dos 104 milhões de reais, os separe. E o deixe com um Luís Fabiano para empurrar a bola para a rede.
Até lá, craque Paulo Henrique, não terás tanto tempo assim para mostrar o que foste com Neymar. Já que o que aconteceu nos tempos de Vila Belmiro, era coisa de menino. Criança de vila, que apronta com os colegas. Hoje é temporário. Já tens tuas responsabilidades. Um Morumbi inteiro para criar jogadas.
Fiquei sabendo que tuas coxas andam cantando. Os críticos resmungando. Teus antigos chefes, reclamando. Não ligue. Se possível, não aperte o botão da televisão. Só se for para lembrar como foi aquele 2010 fantástico.
Contra o Náutico, Ganso, será outra oportunidade. Destas que flagraste naquelas. Dos passes maravilhosos de frente e de calcanhar. Dos gols e as centenas de maravilhas que fizeste junto com os outros moleques rebeldes que fizeram um Santos por pouco o Santos de Pelé. Faça das tuas coxas e pernas, rochas. Com os gritos tricolores que vão vir.
Ainda acredito que existem mais uns 10 Gansos espalhados pelo Brasil. Os outros nove eu não conheço. Paulo Henrique Ganso, este sim, é único. Gênio. Genial. 10.
Que agora volte a cabeça e o foco no lugar. E a bola onde nunca deveria ter de sair: na Seleção.
Que Deus e os deuses da bola te abençoem, Ganso.